— O sol já vai nascer — ela disse. A voz entrecortada, as frases murmuradas na escuridão da noite densa. Era possível enxergar todas as estrelas do mundo naquele breu sem lua — por que o tempo passa tão veloz? Logo você me deixa à mercê da solidão. Não vou suportar tua ausência.
— Não diga bobagens, Cecília. Viveu muito bem sem mim até o dia de nos casarmos.
— Engano teu. Vivi bem, mas vivi contigo. Não conheço um dia de minha vida sem você. Antes de olhar a primeira vez eu já lhe conhecia.
— Como?
— Não sei — lançou a cabeça para trás apoiando-se nas mãos. Os cabelos negros e fluidos como um véu sacudindo com o vento, exalando o perfume de flores que não existiam, que estavam apenas nela. Os olhos gigantes encarando o nada, piscando curiosos como os de crianças que descobrem algo novo — só lhe conhecia, apenas isso. A primeira vez que lhe vi, não foi como olhar para um estranho. Foi como reconhecer um velho amigo que passou uma temporada distante. Nasci para lhe encontrar, querido.
— Soube que éramos nossos assim lhe vi, meu anjo — entrelaçou as duas mãos grandes entre os cabelos dela. Segurou-lhe a cabeça com afeto e beijou-lhe a testa. Demorou os olhos sobre os dela e a abraçou quando ela corou sorrindo — eternidade não tem começo.
— O que quer dizer com isso?
— Quero dizer que não deve se incomodar com o tempo passando veloz ou arrastado. O mundo é nosso, sem pressa. Entretanto, penso que todas as horas do mundo ainda seriam poucas para o amor que te tenho. O resto da vida ainda me parece tempo escasso para a sede que tenho de ti, criança.
— Só sinto que o tempo passa rápido e sua hora de partir se aproxima — Cecília passou os braços ao redor de sua cintura e apertou com toda a força que tinha. Aninhou a cabeça em seu peito e fechou os olhos tentando sorver tudo que tinha da presença de Arthur. Estavam sentados nas escadas que davam para a porta do sobrado onde moravam. O galo ensaiava seu primeiro canto para despertar a cidade. Não dormiam antes do sol nascer, a noite guardava todas as confissões e promessas de amor que faziam um ao outro — não quero que vá. Nunca.
— Pense assim, se passa depressa agora, passará depressa enquanto e estiver fora e voltarei logo para as nossa eternidade, juntos. O tempo passa e nós não, e sempre será assim. Eu prometo.
—Jura? Pelo céu e pelas estrelas? Jura pela vida?
— Que o céu derreta e as estrelas se apaguem se não for verdade.
O galo cantou novamente e as luzes tremeluziam por detrás das cortinas dos vizinhos. Entraram em casa para descansar os corpos enquanto as almas de amavam em sonhos. Sempre se encontravam em sonhos. Pertenciam-se, apenas assim, sem pedir permissão ou entregar-se. Apenas eram um do outro, com tudo que sentiam e entendiam, e com o que não sabiam também, porque amor é não entender, mas ainda assim saber do que não se conhece mas é, só por ser. Amaram-se sobre a cama e entre os lençóis amarrotados. Dormiram abraçados, primeiro Cecília, depois Arthur que nunca perdia o espetáculo silencioso da amada caindo no seu mundo de fantasia, sempre com um sorriso escondido no canto da boca, na curva onde ele gostava de beijar.
(Daniella L — em Cartas de Cecília)
(Source: flor-de-papel)